Desde o lançamento da última aventura de 007 nos cinemas, muita coisa havia mudado no mundo. O sonho americano morria junto com John F. Kennedy e Martin Luther King, assim como a guerra no Vietnã corrompia a inocência da população jovem da América. O maior espião do mundo havia se tornado motivo de piada, consumada na realização do filme “Cassino Royale” em 1967, uma sátira burlesca e equivocada com um elenco abastado, incluindo Peter Sellers e Woody Allen, com a participação do lendário John Huston na direção.
Os produtores Harry Saltzman e Albert Broccoli perceberam que era chegada a hora do espião 007 ser reinventado no cinema, adaptado para este novo público que idolatrava a súbita onda de “anti-heróis” que a indústria injetava nas telas. O primeiro problema que enfrentaram foi a recusa do astro Sean Connery em repetir seu personagem, que ele acreditava estar limitando-o como ator sério. A caça por um novo 007 havia começado!
O primeiro passo foi a ousada decisão do talentoso editor dos filmes anteriores Peter Hunt em assumir a direção deste projeto. Ele havia escolhido filmar “À Serviço Secreto de sua Majestade” com uma narrativa fiel ao livro de Ian Fleming ( este acabou sendo o último filme a ter esta preocupação ), que já havia quase saído do papel anos antes.
Hunt também foi o responsável pela escolha do ex-vendedor de automóveis e modelo australiano George Lazenby para interpretar o agente 007. Lazenby nunca havia atuado na vida e foi após um teste de cena com a atriz Diana Rigg que ele foi oficializado na produção. A atriz que co-estrelou esta audição tornou-se Teresa Di Vicenzo, a Bondgirl “Tracy” que entrou para a história da série por ser a única a levar o mulherengo agente ao altar.
O vilão também deveria mudar de atitude, o Blofeld de Donald Pleasence não assustaria tanto quanto as chacinas vietnamitas tão viabilizadas na época, portanto um novo ator foi escolhido para dar um tom mais ameaçador e realista ao personagem : Telly Savalas. Para o papel de sua cruel aliada Irma Bunt, foi escolhida Ilse Steppat.
Na história, James Bond é enviado disfarçado ao encontro de Blofeld nos Alpes Suíços, onde o vilão pretende provar que é um conde legítimo, devido a sua herança sanguínea, enquanto hipnotiza jovens garotas, treinando-as para serem seus “anjos da morte” e disseminar pelo planeta um vírus capaz de esterilizar todos os seres vivos. Nesta missão, Bond recebe a ajuda de um chefe mafioso chamado Marc Ange Draco ( vivido por Gabriele Ferzetti) e de sua filha Tracy, uma condessa rebelde , por quem logo irá se apaixonar.
Ao longo das filmagens, Lazenby mostrou-se um homem arrogante e indócil, causando desentendimentos com os produtores e com Diana Rigg. A certo ponto, questionou a importância de seu personagem em um mundo tão cruel, onde não haveria espaço para a ingenuidade de um espião secreto que todos conhecem pelo nome. Antes do término das filmagens o ator descartou um contrato para sete filmes, fato que levou os produtores a iniciar uma nova procura por possíveis atores para o personagem.
Ele interpretou um 007 sensível, que chora o trágico assassinato da mulher amada na cena mais impactante do filme. Lazenby não fez nenhuma obra importante no cinema após este projeto e já mais velho interpretou um coadjuvante em filmes eróticos da série francesa: “Emmanuelle”, protagonizados por Sylvia Kristel.
O ponto forte do filme foi a magistralmente editada perseguição na neve, com a equipe de esquiadores profissionais liderados por Willy Bogner realizando feitos estéticamente belos e que tornaram-se um símbolo da série.
“007 – À Serviço Secreto de sua Majestade” é um filme formidável, desde sua seqüência inicial musicada por John Barry, que remete aos filmes anteriores, passando pela bela montagem romântica ao som de “We have all the time in the World” cantada por Louis Armstrong até seu final surpreendentemente triste. Peter Hunt em sua única participação na cadeira de diretor realiza uma obra pungente e apaixonada, que merece obter um melhor lugar no coração dos fãs da série.
Ao estrear, obteve um faturamento inferior ao filme anterior, o que levou os produtores a tentar desesperadamente fazer com que Connery retornasse, pelo menos uma última vez.
NOTA : 10 / 10

